'Um dia eu me senti como se fora
O infeliz Aasvero legendário
E andei no mundo triste e solitário,
Senti frio n'alma sofredora.
Sonhei na morte a estrada salvadora Ao meu grande martírio imaginário,
E sem notar o meu trágico desvário,
Afundei-me na treva aterradora.
antas vezes a minh'alma enferma e aflita
Sonhou a paz nirvânica, infinita,
E apenas tenho a dor que me devora.
Ó Senhor, abrandai as minha penas,
Eu sou inda, entre as lágrimas terrenas,
Uma lama mortal que sofre e chora.
Antes a nossa vida terminasse
No turbilhão de pó da sepultura,
Antes a morte fosse a noite escura
Onde o ser nunca mais se despertasse.
Ah! se a nossa existência se acabasse,
Cessaria de certo a desventura!
Contudo a vida é o bem que se procura,
Morrer é ver a vida face a face.
Todavia, se sofro,ó Deus clemente,
É que sou criminoso, o delinquente,
E o enfermo sem paz e sem saúde.
Perdai a minh'alma se blasfemo,
PONDE EM MEU CORAÇÃO O DOM SUPREMO
DA HUMILDADE QUE É AURÉOLA DA VIRTUDE.'
Hermes Fontes (1888 - 1930)