Há certa lucidez na noite de insônia -
Forma luminosa deslizando nas cortinas
Uma face pálida à janela surge
E um leitoso jorro desce das vidraças.
Esqueço o medo, as trevas são lânguidas
Lascivas tal um momento de desejo
E quero banhar-me em leite farto
Clarear minha íntima obscuridade.
‘ desperto adormeço dentro os temores
na minha noite idolatro o Segredo.’
Quero banhar-me no jorro deste seio
Lúcido na escuridão sinto o pulsar
De pesadelos obscenos a torturar-me
Em gemidos de selvático gozo.
Quero banhar-me, nutrir-me todo
No visgo gotejante das trevas
Quando, do eclipse da lua, desce
O manto de escura noite.
‘ mas eu, nos pesares profundos,
devo retornar aos ermos de mim.’
Campinas desconhecidas de mim
Onde lentamente vicejam orquídeas
A sugarem ávidas outros desabrochares
Lá no abismo de meus risos.
Na cantiga que ao luar ecoa,
Além do pensamento e do silêncio,
Na embriaguez do mal que aí habita,
Com olhos fechados procuro o Sentido.