PARTE 1
Já estava entardecendo. As nuvens no céu tomavam formas espessas de um azul acinzentado adornado por um vermelho cintilante. Eu estava sentada em um banco de jardim, vendo o tempo passar. As nuvens logo foram sopradas para outro lugar qualquer do céu, dando espaço para outras. O vento gélico de inverno tocou meu rosto, e me dei conta de que estava tremendo.
Haviam tantas coisas em que eu queria pensar ali, ao luar. O passado feliz, o presente monótono, o futuro incerto..as coisas que me faziam prosseguir e os motivos para viver de repente sumiram do alcance de meus pensamentos. Como as nuvens no horizonte. Eu nunca iria desistir da vida, por mais miserável que se tornasse. Meu futuro, vendo daqui, parecia tão..comum. Sei que seria feliz daquele jeito mas, eu não gosto desta ideia. O desconhecido sempre me fascinou, e era daquela maneira que eu queria que fosse. Imprevisível.
A escuridão já me envolvia quando dei conta de mim. Minha respiração se resumia a uma nuvem de fumaça gélica lançada no ar. Eu estava sozinha, e não havia nada melhor para ser feito. Eu poderia ter entrado na minha casa e me deitado sobre a cama, mas não, continuei ali fitando o nada. O vento incessante balançava as copas das árvores, me fazia estremecer. O que eu fazia ali? Que espécie de atitude anormal me fazia ficar sentada na escuridão da noite quando se tem o compromisso de estar em outro lugar? Quais seriam as desculpas quando, no dia seguinte, todos perguntarem porque faltei? Eu era mais previsível que isso. Sempre influenciada pelas decisões alheias, descartando meu próprio ponto de vista. Á esta altura, eu deveria ser anti social. Não deveria falar nem ouvir mais ninguém, e deixar que minhas decisões acontecessem naturalmente, pelo simples fator tempo. Sem pressão.
Pensar não faz mal, mas o raciocínio lógico já estava comprometido à estas alturas. Pensar na vida por uma longa tarde consome energia e paciência. Uma parte de mim queria falar; falar e ser ouvida, também. Tantas ideias, isso poderia levar dias. Outra parte de mim dizia para a primeira se calar, que minha cabeça já estava doendo demais para aguentar tanta informação. " Ouça o silêncio" a voz disse. Tudo se acalmou. Ouvi o vento passando pelas folhas, os pequenos animais da noite cantando suas canções de sempre. Nenhum movimento na rua. O céu estava limpo; milhões de pontos de luz reluziam sobre minha cabeça. Tentei identificar os signos do Zodíaco e, por sorte, encontrei o escorpião, com sua cauda peçonhenta cintilando na esfera celeste.
PARTE 2
Aquilo se tornava para mim uma espécie de Dèjá vú, algo que eu já havia visto em algum momento do passado. Talvez não ali, naquele banco úmido. Talvez..pela janela da cozinha de minha antiga casa. Isto já fazia algum tempo. Existem vários momentos assim em minha mente. Noites de inverno; eram todas iguais. Aquela era uma lembrança antiga, muitos nela já não estão mais vivos. Passado feliz. Uma tarde como tantas outras, o sol aquecia as cobertas jogadas no chão da garagem, e eu brincava com as penas que saíam dela. O vento levavam-nas para longe, enroscando-as nos galhos e folhas do pequeno jardim verde. Era uma boa lembrança, fazia me sentir aquecida. Me trazia á tona outras lembranças, comemorações de aniversário, brincadeiras de infância...Minha mãe tinha tirado o jantar e eu me sentei a mesa com um dos milhares de caderno de desenho que tinha, e um lápis. Me sentei de frente para a janela. A luz da cozinha de minha outra casa - a casa de meus avós - estava acesa. O único ponto de luz visível, além das milhares de estrelas que pendiam sobre o telhado. As mesmas estrelas que pendem sobre minha cabeça hoje. Estava friu, mas eu queria ficar ali, observando por detrás do vidro minha avó se movimentar na cozinha. Ela finalizava o jantar e ajeitava a mesa. Ouvi o estalo da janela de madeira contra a parede quando ele a abriu para chamar meu avô para o jantar. Lá estavam os dois, á mesa. A cozinha era pequena o suficiente para ser vista pela janela. Desenhei o que eu via; a silhueta da casa no escuro e a claridade vindo do retângulo quadriculado de vidro. Com o passar dos anos aquele registro se perdera. Cerca de oito anos atrás. É uma lembrança que já está embaçada demais para ser contada em detalhes, mas pela simplicidade jamais será esquecida. Não é feliz, nem triste. É apenas mais uma recordação.
Já fazia algum tempo que eu havia dito para mim mesma que não desenterraria as lembranças do passado, por mais felizes que fossem. As pessoas com quem convivi, e que já não vivem mais me fazem sofrer por sua falta. É algo involuntário.
A noite, intensamente escura, não parecia beirar a reflexão. A céu estava claro o suficiente para ver o manto dos anjos esvoaçando entre as raras nuvens. As árvores tomavam formas grotescas pela escuridão e por entre as flores da beira do lago podiam se ver vagalumes piscando, com suas luzes sendo fracamente refletidas nas águas negras do lago, gélico, morto. Sobre ele podia-se ver a água evaporando; uma nuvem esfumaçante que rodeava toda a sua superfície. Ao longe, uma coruja piava, sendo respondida por outra mais perto. Consegui destinguir sua silhueta em um fio de energia, no alto de um poste de luz. Sua cara redonda estava virada para mim, me fitando ao longe. De repente parecia que todos ali estavam me observando. Debaixo dos arbustos, nas copas das árvores, entre os troncos roliços que rodeavam o gramado, na penumbra da floresta. Havia um par de olhos cintilantes no começo da trilha, olhando para mim atentamente. Desviei o olhar, tentando não o convidar a vir até mim. Olhei para mim mesma; minhas mãos estavam roxas de friu e minhas pernas tremiam freneticamente sob o banco úmido. Uma espécie de névoa envolvia meus pés, e logo alcançou meus ombros. Comecei a tontear. Minha cabeça girava com a fumaça que a envolvia, um estado de embriagês profunda. As coisas estavam perdendo a forma em minha volta, e acabei caindo do banco direto para a grama molhada. A fumaça inalada me fazia tossir e me deixava sem ar, e por um segundo pensei ter visto a fumaça branca ganhar formas. Ela envolvia meu corpo jogado no chão com braços fantasmagóricos, e me fazia tremer ao seu toque. Algo ali me himpinotizava, tirava toda minha atenção, como se eu não pudesse mais enxergar. Outra corrente de ar passou por mim, me arrastando para longe do banco e encharcando toda minha roupa. Nesse instante o fantasma nebuloso ganhou vós e sussurrava com o vento frases sombrias, cheias de horror. Tampei meus ouvidos, mas os sussurrs continuavam. " Não deverias ter vindo aqui esta noite, não terás nova chance. Sua alma estará perdida."
E o vento cessou. A lua já estava alta, iluminando minha face e ofuscando minha visão. Tentei me levantar, mas uma força sobrenatural me faz cair de volta. Meu pé estava preso por uma raiz de uma velha árvore, e parecia impossível soltá-lo. Quanto mais força eu investia contra ela, mais ela enroscava-se em mim. Em minha volta e em meu alcance nada que pudesse ser afiado o suficiente para rompê-la. Um grito agudo horrendo repentinamente se fez ouvir na direção da floresta. Olhei para os lados, nada parecia ter mudado. Somente a névoa, que agora parecia mais espessa e palpável e..já não era mais uma névoa. Esvoaçava diante de mim um longo manto negro, juntamente com um par de olhos que me fitavam ansiosamente, como se eu fosse tudo o que desejam encontrar esta noite.
PARTE 3
Em seu rosto uma máscara metálica refletia a lua, e seu corpo era envolto por um manto escuro. O capuz em sua cabeça ocultava sues olhos, profundos, que não desviavam de mim. Eu queria correr, mas estava presa. Tentei em vão me soltar. Desesperada, procurei por minha voz para gritar por socorro. Ela havia desaparecido. Agora a estranha criatura estava de pé na minha frente. Lutei contra mim mesma para não desmaiar no chão mas meu coração não conseguia reduzir seu ritmo frenético. A criatura pegou meu braço e olhou minuciosamente. Nenhuma expressão. Levou meu braço até o rosto, abriu a boca e cravou seus dentes afiados como navalha em meu pulso, rompendo minha frágil pele. Como o primeiro surgiram mais dois seres, vindos sei lá de onde, com suas capas sujas ao vento incessante. Andaram em volta de mim, sentiram o aroma de minha pele. Um, tocando meu pescoço com seus dedos calejados abaixou-se e instintivamente levou sua boca até lá. Logo depois senti picões em meus braços e em várias outras partes do corpo. Não havia mais nenhuma névoa me envolvendo, mas minha cabeça ainda girava, tonteante. O fluxo de oxigénio em meu cérebro já estava baixo o suficiente para eu perder a consciência dos meus movimentos. Vi uma poça de meu próprio sangue formada no chão, e então os sons começaram a baixar de intensidade. O vento ainda balançava os galhos, mas eu já não o ouvia mais. A escuridão se completou em minha mente, e meus sentidos se desligaram de vez.
A claridade intensa da manhã ofuscou minha visão. Eu me sentia horrível, dolorida. Ainda estava deitada na grama, agora seca, em baixo da enorme árvore que dominava a vista de meu pequeno jardim. E meu pé não estava mais preso a raiz nenhuma. Me levantei. A casa parecia estar deserta. Quando abri a porta, que estava destrancada, tudo estava como havia sido deixado na tarde passada. Será que meus pais não voltaram para casa na noite anterior? Procurei o banheiro, me arrastando pela parede. A claridade e o verde estavam refletidos em todo lugar. Meu reflexo mais parecia um assombro: olheiras roxas, o rosto sujo de lama e arranhões inflamados por todo o corpo. Abri a torneira e lavei meu rosto descorado. Me olhei mais uma vez no espelho, estava tudo vindo à tona agora...O banco úmido, a névoa branca, a raiz em que meu pé se prendera, os sugadores com suas capaz negras...Teria sido tudo apenas mais um pesadelo? Parecia ser real demais. Minha pupila estava dilatada quase totalmente, e minha íris tinha um tom mais escuro do que o normal. Deviam ser esses reflexos de claridade. Minhas mãos estavam cheias de ferimentos. A cicatriz oval estava ali, em meu pulso. Afastei os cabelos do meu pescoço, para ver se tinha outra marca ali. Tinha, como eu já esperava. No meu braço havia uma que se destacava das outras; era maior e mais profunda, levaria semanas para cicatrizar totalmente. Então era verdade, aquilo não foi um sonho. E eu me sentia fraca, com sede. Procurei um copo, enchi de água e bebi. Aquilo estava com um gosto terrível, parecia ser lodo ou coisa assim. A água não parecia contaminada, estava perfeitamente transparente. A campainha tocou. Deveriam ser meus pais, finalmente. Eles não deviam me ver assim, mas eu precisava vê-los.
" Carteiro " uma voz masculina chamou à porta. De súbito uma corrente de alívio passou por meu corpo; não era nada comprometedor.. Abri a porta, ignorando a cara de espanto do rapaz, que me entregou as correspondências enquanto eu começava a assinar o recibo. Algo delicioso veio com o vento, que tocou meu rosto e inflou minhas narinas. Um cheiro doce, irresistível...Em um segundo, entendi tudo. Olhei para o rapaz diabolicamente, e disfarçadamente olhei à volta. Ninguém na rua. O meio envolvente de meu jardim escondia a faixada da casa, onde eu estava. Entreguei a prancheta de volta para ele. Ele sorriu para mim. Não teve tempo para despedidas, pulei sobre ele com uma força incrível e ataquei seu pescoço com uma ferocidade espantosa.
PARTE 4
Depois de alguns minutos minha sede estava saciada, e o rapaz estirado na minha varanda. Minha consciência voltava, mostrando para mim tudo o que eu não queria ver. Quem eu era agora. Uma assassina, que mataria ainda muitos outros inocentes que bateriam na minha porta. Nunca quis isso, esse é o pior propósito para alguém viver. Não mataria mais ninguém, esse desgosto teria um fim. Poderiam ter sido meus pais! Chorei muito diante daquela cena, perdi a conta de quantas vezes eu disse entre soluços que me odiava, odiava minha existência. Até que o corpo pálido e morto abaixo de mim começou a estremecer. Sequei minhas lágrimas, sem conseguir mover nenhum músculo, paralisada de assombro. Tentei encontrar a porta, mas algo me fazia ficar ali, contra minha vontade. Uma curiosidade inconsciente misturada com a imobilidade de meu corpo. Seus olhos se abriram, e ele levantou-se bruscamente do chão. Olhou para mim e para aquela cena bizarra de sangue por todo o chão e agitou a cabeça. Eu estava paralisada e ele se aproximou de mim. Olhou por cima de meu ombro, seu reflexo na vidraça.
“Mas o que você fez!” ele me encarou, me paralisando ainda mais.
“..e..eu não sei – fiz uma breve pausa, tentando recuperar o foco – aconteceu o mesmo comigo ontem, eu estava sentada lá e de repente alguém me atacou e eu desmaiei...”
“Você não sabe o que fez?”
“Só sei que quando senti seu cheiro perdi o controle, eu estava..com fome, eu acho.”
“Sim, você me atacou como uma onça faminta, maluca! O que você pensa que está fazendo?” ele me encarou de novo.
“Eu sei, me desculpe. Não pude me controlar, eu nem esperava por isso.Quer dizer, eu nem sei o que sou!”
“Problema seu, não pode ficar atrapalhando quem tem mais o que fazer. Não sou culpado por você ser louca.”
“Mas não..”
“Mas nada, não quero nada com você. Já é hora do almoço e tenho centenas de correspondências para entregar.” eu não podia acreditar nisso.
“Não!” eu não podia o deixar sair por aí e fazer mais vítimas.
“Não o que? Me largue!”
“Você não pode ir! – gritei apavorada – é perigoso..para os outros. Acredite em mim.”
“Maluquinha você. Já perdi tempo demais aqui.” Ele não iria mesmo acreditar em mim.
“Tudo bem, vá então. Quando acontecer algo estranho com você já sabe quem procurar.” eu disse. Talvez fosse mesmo melhor ele ver com seus próprios olhos porque mais cedo ou mais tarde algo iria mesmo acontecer com ele.
“Sei...” e ele me deu as costas com um sorriso de deboche no rosto, como se eu fosse mesmo louca! Talvez fosse demais querer ajudá-lo, se nem eu sabia o que esperar de mim. De uma coisa eu tinha certeza: não podia ficar entre as pessoas normais, deveria manter distância deles. E o que mais? Quantas atrocidades eu cometeria até descobrir em que me transformei? Fiquei imóvel, ali, sentada no piso quente. Se eu pagasse para ver talvez o final não fosse feliz. E eu sabia, não podia ficar, esperar o pior acontecer. Devia tomar um rumo menos perigoso para as pessoas que amava. E quem sabe nada realmente aconteceu àquele rapaz e ele agora devia estar imaginando o porque de ainda não me terem preso em um sanatório. E talvez eu não quisesse mais tanto ajuda-lo. Tanto tempo sentada esperando, sem saber como agir em relação a mim mesma. Meus pais ainda não estavam de volta, e já era tarde. O sol começava a cair para o outro lado do céu. Mas não era hora de se preocupar com eles, e nem de esperar para ver se voltariam bem. Entrei em casa, comecei a escrever um bilhete. Como eu estava de férias do colégio não seria nada estranho eu resolver viajar sem grandes motivos." FUI VISITAR A TIA SELENA. VOLTO ASSIM QUE O SEMESTRE COMEÇAR. ESTOU MUITO SOZINHA AQUI” escrevi. Selena era minha tia-avó, uma velhinha que vivia sozinha e adorava quando íamos visita-la. Era a desculpa perfeita, e eu nem sabia se pretendia mesmo ir para lá, já que meus pais não iriam ligar para conferir. Não se davam muito bem com ela. Coloquei algumas roupas na mala, meu laptop, algum dinheiro. De alguma coisa serviu trabalhar nestas férias. Liguei meu Passat 89 azul escuro e segui a estrada, deixando ela me levar para onde quisesse.
PARTE 5
Já a alguns quilômetros de casa, distraída, passei por um tumulto de pessoas em frente a uma das casas de que meus freqüentavam. A porta parecia ter sido arrombada, mas não consegui ver bem com tantas pessoas na frente. Fechei os vidros do carro, tentando não correr riscos desnecessários. Pisei fundo no acelerador, já que não dava para ver nada. Quando cheguei à rodovia principal eu já estava completamente fora do ar. A estrada estava deserta, em um belo fim de tarde quente. Eu não sentia fome nem sono, e me perguntei por quanto tempo isso ainda duraria. Já era noite quando cruzei o estado. Eu estava na direção da casa de minha tia, mas ainda não tinha me decidido se iria ou não para lá. Eu estava ouvindo o vento passando pela janela quando meus faróis iluminaram alguma coisa a alguns metros a frente na estrada. Parecia um homem, caído no meio da rua. Desci para ver se estava bem. Cheirava a álcool. Cheguei a pensar que estava morto, mas seu coração ainda batia, meio descompassado. Eu não sabia bem como agir, então virei seu corpo para tirar sua cara do asfalto e ele começou a respirar como se tivesse engasgado. Levantei suas costas e dei uns tapas, e ele correu para a beira do asfalto, cambaleando, e começou a vomitar. Quando terminou caiu por lá mesmo. Fui lá o socorrer, eu realmente não sabia bem o que fazer.
“Você precisa de alguma ajuda?” eu disse.
“Não. Pode deixar eu...sei..o caminho de casa” respondeu ele, com dificuldade.
“Deve saber, mas não vai conseguir chegar” eu não iria agüentar outro teimoso.
“E porque você se importa? Ninguém se importa. E eu não quero niguéééém se importando comigo, entendeu?” disse ele entre berros e gemidos novamente, e virou para vomitar mais uma vez.
“Entre no carro, já sei o que fazer com você” eu disse.
“ Tá bem” ele respondeu, sem hesitar. Ele realmente não sabia mesmo o que estava fazendo. Quando já estávamos quase no pronto socorro ele resolve tirar satisfações, finalmente, do porquê de eu ter “raptado” ele dessa maneira.
“Posso fazer uma pergunta?”
“Que foi?” eu não aparentava bom humor.
“Você vai me matar?” devia estar muito bêbado para achar uma coisa dessas.
“Não! Estou te levando para o hospital.”
“Mas que droga! Eu disse que não quero a ajuda de ninguém, me deixe descer!”
“Não, você não vai descer”
“Droga!” ele resmungou mais uma vez. Depois, silêncio. Eu estava parando o carro quando ele falou novamente.
“Hei, moça..Como você disse mesmo que era seu nome?”
“Jenny”
“Então, Jenny, só queria agradecer. Quer dizer, por você me ajudar. Ninguém nunca fez algo assim por mim” e naquele instante uma sensação tão boa quanto inexplicável passou por todo o meu corpo, tocando cada nervo, e então eu pude ver o que havia por detrás daquele sorriso de agradecimento. Sua face se iluminou e seus olhos brilharam, incrivelmente azuis, como os de um anjo. Havia em suas costas plumas cintilantes, douradas e azuladas, que esvoaçavam ao embalo da leve brisa que vinha do exterior do carro. Perdi completamente as palavras. Ele sorria para mim, a bondade refletida nos olhos. Seria um anjo?
Ele abriu a porta, e uma enfermeira veio correndo o levar para dentro. Disse que o encontrei no meio da estrada, não o conhecia. Ela disse que cuidaria dele e se foi. Liguei novamente meu carro e tomei meu rumo, eu não tinha nada a perder agora. E eu me sentia tão bem agora...
PARTE 6
Já estava amanhecendo quando fiz minha segunda parada. Eu estava completamente perdida, e a ruazinha de terra que eu havia tomado era sem saída. E desabitada. De um lado haviam colinas verdejantes com alguns animais pastando e do outro, uma ribanceira com um riacho no fundo. Eu havia seguido a estrada, e não tinha idéia de como fui parar lá. De repente eu estava ali, sem ter como continuar. Sentei e esperei pelo que fazer. Resolvi, como um impulso, que se não daria para prosseguir com o carro, eu continuaria a pé. Só um breve passeio pela floresta.
Enquanto eu caminhava, o sol surgia e revelava o verde que se escondia e brotava dos cantos mais escuros da floresta. Os poucos animais que lá se alimentavam pareciam não gostar de minha visita. Coelhos bebendo água de um córrego com alguns cervos e pássaros por toda a parte. Chegava a ser sufocante ver toda aquela normalidade.
A densidade da floresta diminuía a medida que eu continuava, então percebi que eu havia chegado ao fim da trilha. Era uma larga estrada decorada por árvores e um enorme arco de ferro – um portal – encerrava a caminhada. Nele havia flores roxas e brancas, que pendiam para o chão. Quando olhei para frente tudo o que vi foram videiras para além do horizonte. E uma grande torre, ao longe. Não que me importasse saber onde eu estava, mas a curiosidade me fez seguir, com a desculpa de perguntar para quem encontrasse no caminho qual era a direção para retornar a cidade. Não que me importasse também o que havia depois das colinas, mas era difícil resistir, como se algo me atraísse para lá.
Caminhei pelo que pareceram horas, sem ver a paisagem se modificar. O aroma que as videiras exalavam era tão doce que minha garganta queimava. Mas não era um aroma cansativo, era um doce irresistível que me cercava por todos os lados. Peguei um dos muitos cachos por que passei e experimentei-lo. Minha mente já estava completamente desligada do exterior. Dezenas de outros cachos vieram após o primeiro; vermelhos, roxos e verdes, a vontade parecia insaciável.
Estava tão distraída com meus pensamentos e todas aquelas uvas que quando cheguei no fim da linha nem me dei conta de que estava sendo observada. Lá, diante da velha porta escancarada da torre – a torre que vi ao longe – estava um pequeno homem, velho e de barbas brancas, sorrindo por ver que finalmente dei por mim. Ele não estava usando nenhuma capa esvoaçante, tão menos parecia ameaçador. Não hesitei em me aproximar, sendo que ele olhava fixo para mim desde que focalizei seus olhos.
“Você demorou muito, querida” seus olhos azuis me encararam, fazendo-me perder as palavras ao sentir a boa sensação que deles transbordavam.
“É um longo caminho”
“Não me refiro a essa demora. Você sabe o que te trouxe aqui?” sua voz adocicada me himpnotizou de tal maneira que as palavras saíram antes mesmo de serem processadas.
“Não bem, ainda não sei o que procuro”
“Pois eu sei, e já esperava por você. Não sente um alívio por ter chegado aqui?”
“Sim, o caminho longo me desesperou” revelar as coisas assim era constrangedor. O velho homem me convidou para entrar e foi fazer um chá enquanto eu esperava em sua sala de visitas, repleta de sinais pagãos pelas paredes e livros mofados pelos cantos. Era fascinante e assustador ao mesmo tempo. Da cozinha, o velho me chamou aos resmungos.
“Venha aqui me ajudar com estas bandejas, estou velho demais em querer ser gentil ou me gabar por levar duas delas de uma vez”. Fui correndo,tamanho foi o susto. Era como ajudar um velhinho e limitado avô – eu não me importava.
O chá cheirava forte, e, antes que eu pudesse pensar vi o grande estoque de ervas que enfeitavam a cozinha. Seria ele um feiticeiro? Que tipo de rituais ele praticava usando todos aqueles sinais rabiscados em sua sala?
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Continuação ->