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AINDA É O MESMO MUNDO (continuação)

Postada em: 20, Agosto 2010 - 10:15:05

PARTE 7

Sentamos, mas ele nem sequer tocou em sua xícara de chá. Pegou um dos muitos livros empoeirados sobre a mesa.

“Você se sente bem agora? Este chá recupera forças de pessoas como você. Gengibre, canola, cereais e vinho. Delicioso, não?”

“Sim, estou bem – eu disse – você disse que sabia como me ajudar”

“Oh, posso sim, minha cara. Como eu disse, eu já esperava por você. No que posso ajudá-la?” ele sorriu fraternalmente para mim. Tive a impressão de que ele sabia melhor do que eu quais eram as formas em que podia me ajudar. Expliquei sobre a noite no jardim e dos detalhes. Eu não lembrava de muito que pudesse ajudar.

“Humm.. – ele meditou – sei bem à quem se refere. São filhos da noite, uma espécie de demônio que se alimenta principalmente de sangue humano. Este que você viu deduzindo pela máscara deve ser um dos primeiros, cavaleiros da antiga Era. Servia a algum dos quatro grandes mestres negros.”

“Quer dizer que sou um deles agora?” essa ideia era aterrorizadora.

“Não. Você continua humana. Entenda, só seus mestres podem transformar por completo um humano em um filho da noite.”

“Não me sinto muito normal para uma humana.”

“Ele a infectou quando mordeu, mas isso não quer dizer que você é igual a ele. Apenas que recebeu alguns ‘dons’. É muito raro alguém sobreviver sem ajuda. Meu trabalho é ajudar pessoas como você, por isso você veio para aqui. Este lugar emite uma radiação que arrasta os novos para cá.”

“Dons? Não vi nada especial em mim além de não me alimentar, dar uma de zumbi desde que me morderam e atacar carteiros.”

“Você mordeu alguém?” ele me encarou, sério.

“Eu não sabia que..não consegui controlar. Me descul..”

“Tudo bem, mais um. Não tem importância.” Ele me cortou.

“Eu o infectei também?” perguntei, preocupada com a quantidade de pessoas que ele poderia ter infectado até agora.

“Creio que sim. Mas ele também não irá virar nenhum demônio. Como ele foi infectado por você, seus poderes serão tão ou menos poderosos quanto os seus. A escala de transformação diminui conforme a escala de mordeduras. Só são realmente poderosos os que forem mordidos pelos próprios mestres negros. Estes terão cem por cento de seu sangue contaminado.”

“Mas estes dons, exatamente o que são?”

“Anomalias sobrenaturais. Ver espíritos, ouvir outras freqüências, manipular pessoas, qualquer coisa que não lhe parecia normal. Todos são diferentes, cada dom é singular. Tudo tem muito a ver com quem você foi, o que pensava..”

“E qual é meu dom?”

“Sem pressa, querida. Ainda iremos descobrir isso. Mas lembre-se de que a velocidade, raciocínio rápido, sua alimentação diferenciada e outras mudanças não são consideradas dons, são normais para qualquer um de vocês.”

“E exatamente o que eu sou então?”

“Uma pessoa com vantagens - ele riu e voltou a tomar o chá agora frio que segurava, e depois de alguns minutos se ergueu e deu um sorrisinho torto – Então em breve teremos visita. Nada melhor para um velho e cansado exorcista do que dois jovens aspirantes” e caminhou de volta para a cozinha. Quando entardeceu ele me levou a alguns andares acima, onde se encontrava o quarto onde eu iria ficar. Era imenso, redondo e com poucos móveis. Um armário velho, um sofá mofado e uma grande cama de molas. A vista que tinha era linda, panorâmica. Eu podia ver todas as colinas e além da pequena floresta por onde eu passara.

“Este é o quinto andar - o velho sorriu, presunçoso – são mais quatro até o topo. Você pode subir até lá, se quiser. A vista é ainda melhor e a brisa, pura como as águas dos córregos.”

“Oh sim, muito obrigada. Boa noite.” eu disse, e ele se foi escada acima. Supus que o quarto dele ficasse no último andar. Durante toda a noite ouvi vários sons, dentro e fora da torre. Como eu não podia dormir, tudo aquilo se tornava ainda mais assustador com o passar das horas. O silvo do vento passando pelas árvores mais próximas da minha janela, animais da floresta fazendo sons angustiantes e uivos dolorosos, o ranger das portas com a mais leve brisa, sons de passos nos andares de baixo. Eu não tinha muito o que fazer, eu não sabia o que iria me distrair. Esperei cada vez mais angustiada pelo amanhecer, e cada hora ociosa parecia uma lenta tortura a qual eu estava condenada até o fim de minha existência. Eu realmente não acreditava que algum dia eu pudesse dormir de novo, agir com mais normalidade. Eram cinco da manhã quando o primeiro galo cantou. Depois outros, mais ao longe. Era quase impossível eu poder ouvir sons tão distantes. O sol ainda não havia nascido, mas o céu já estava mais claro. Poucas estrelas restavam. Ouvi novamente passos pela escada, desta vez mais leves. Depois ruídos de panelas e talheres, e, por último, sussurros. Duas vozes de homem conversando. Imaginei se morasse mais alguém com ele na torre. Ele teria me contado se tivesse. A voz velha e cansada facilmente distingui de quem era, mas a outra..a outra parecia estranhamente familiar, como que se eu a tivesse ouvido a poucos dias atrás. Desci silenciosamente as escadas, tentando ouvir melhor o que as vozes diziam. Agachei-me nos últimos degraus do segundo andar, tentando me manter nas sobras que ainda restavam da madrugada.

“Não posso ajudá-lo. Isso está completamente fora do meu alcance” a voz velha disse.

“Você sabe que corre um sério risco mantendo ela aqui, tem que entregá-la a nós antes que eles venham buscá-la.” sussurrou a voz jovem.

“Eu sou o responsável por ela, e sei muito bem o que vocês farão se a levarem” disse a voz velha, irritada.

“Pensei que você não se permitisse criar laços afetuosos com seus aprendizes” a voz jovem disse, em tom de deboche.

“Mal a conheço, como poderia sentir algo por ela? Vejo um grande potencial vindo dela, algo muito além dos dons comuns. Não vou deixarem usa-la.”

“Não vamos usá-la. Vamos apenas protege-la. Você sabe o que pode acontecer se eles a pegarem primeiro. E eles a querem, eles têm planos para pessoas como ela.”

“Ela nem sabe ainda do que é capaz! Não passa de uma humana assustada, como podem querê-la?” disse quase gritando a voz velha e cansada. Definitivamente, estavam falando de mim.

“Ah, por favor, com todos seus anos de experiência e me faz uma pergunta dessas?!”

“Não vão ter o que querem aqui, estão no meu território.”

“Olhe bem para mim: vê algum limite que eu não possa cruzar? Deixe de ser ridículo e nos entregue logo ela. Não vê que quem sofrerá as conseqüências será você?”

“Retire-se agora de minha casa!” gritou a voz velha.

“Você sabe que não têm como me impedir.” disse a voz bela e jovem, calmamente. Pensei se deveria ajudar o velho homem que me acolheu ou deveria me manter em silêncio. Desci alguns degraus e parei novamente, indecisa. Neste momento os sussurros pararam subitamente e, mais alto do que antes, a voz jovem disse:

“Parece que temos companhia, velho amigo - e caminhou até onde estava a escada. Quando me viu fez uma cara de espanto – então você a esconde aqui mesmo, que esperto..” O belo homem magro de olhos azuis ergueu sua mão em minha direção, e uma luz ofuscante me cegou. Caí de costas, meus olhos não conseguiam se fechar. Minha mente se distanciava da realidade enquanto a luz branca se transformava em um preto intenso. Meu corpo se relaxou e de repente minha mente recebeu um surto de informações. Estremeci tentando pensar no que poderiam estar fazendo comigo. Até meus pensamentos pareciam controlados, limitados.

PARTE 8

Eu sabia que ele ainda estava ali, mas eu sentia cada vez menos sua presença. E de repente eu acordei. Sabia que aquele cenário não era real, mas mesmo assim preferi acreditar que tivesse mesmo acordado. Eu estava sentada no sobrado de uma linda casa, o piso estava frio, refletia o azul prateado da lua. Nuvens espessas e pesadas vinham lentamente saindo detrás das montanhas, cada vez mais intimidadoras. A lua estava quase cheia, brilhava fortemente no céu estrelado. Todas as nuvens estavam imóveis, altas. Uma corrente de ar mais baixa arrastava uma pequena nuvem consigo, que inchava cada vez mais. Ela atravessou o céu, e estava tão baixa que quando passou por mim pensei que ia me atingir. Depois de alguns minutos outras pequenas nuvens voavam depressa atravessando o céu, na mesma direção da primeira. Distraída, não percebi os pequenos ruídos a minha volta. Quando meu pescoço já estava dolorido de tanto erguer minha cabeça desisti e olhei para outro lugar. Basicamente a paisagem a minha volta se resumia a um lance de vista pouco nítido, variando tons de verde escuro e preto. Mas três pontos brancos se movendo com cuidado em minha volta chamaram minha atenção quase que instantaneamente. Mantinham uma distancia segura de mim, olhando-me atentamente, congelados de espanto. Seus olhos refletiam um vermelho quando se encontravam com qualquer raio de luz. Eram três gatos, dois grandes e um filhote. Todos brancos. Me mantive imóvel, vendo se isso os faria andar normalmente de novo. Mas o que os assustou desta vez não fui eu. Um ruído quase inaudível os fez ficar mais imóveis ainda, em estado de alerta. O jardim era simples, havia algumas folhagens, um caminho de pedras e uma árvore velha e redonda, com pequenos cipós e doninhas a cobrindo até o chão. Flores amarelas que se tornavam fluorescentes à luz da lua enfeitavam seu exterior. Tinha muitos galhos, baixos e tortos. Era quase impossível ver se havia alguém naquela árvore, tamanha era a quantidade de ervas e cipós que pendiam de sua copa. Mais um ruído fez os gatos gemerem de medo. Graciosamente um gato preto pulou para o chão, olhando alternadamente entre mim e os gatos brancos. Seus olhos refletiam um laranja cintilante, diferente dos outros gatos a minha volta, que se transformavam em estátuas a cada passo gracioso do gato preto. Ele vinha em minha direção, os olhos agora fixados somente em mim. Mas isso não impediu os outros gatos de ficarem na defensiva, entre mim e o gato preto, soltando rosnados horrendos. Eu me sentia meio perdida em meio aquilo tudo. Porque os gatos brancos estavam me defendendo? Antes que pude pensar em uma resposta o gato preto soltou um grito ensurdecedor do fundo de sua garganta, que ecoou nas paredes das montanhas. Os gatos brancos não recuaram. De súbito o gato preto deu um pulo no ar, na direção dos gatos brancos. Enquanto ainda estava no ar seu tamanho pareceu triplicar, o transformando em um puma gigantesco, que caiu sobre os gatos brancos estraçalhando com os dentes tudo o que estava em seu alcance. O gato menor sumiu entre as sombras escuras das folhagens, sem olhar para trás o fim que seus amigos tomavam. Eu sabia que algo estava errado, senti uma enorme necessidade de ajudar aqueles gatos que tentaram me defender, mas já era tarde. O puma estraçalhou os dois gatos, e tufos de pelo branco voavam por toda a parte. A violência de tudo isso me paralisou. Lágrimas corriam na minha face, geladas, como água. E o puma não parava, não parava... Os dois gatos estavam despedaçados. Tinham pedaços de carne espalhados por todo o gramado. Finalmente o puma olhou para mim de novo, com os olhos cheios de curiosidade. Sentou ao meu lado, o rabo dançando no ar.

“Gostou do show?” disse uma voz de homem. Olhei com desaprovação e nojo para seu rosto. Seus olhos azuis me fitavam, curiosos, e seu cabelo claro esvoaçava sob a suave brisa.

PARTE 9

“O que você quer de mim?” eu disse. Ele deu sorriso com o canto da boca.

“Você.”

“Não tenho nada de especial. Deixe-me ir!”

“Você acha mesmo que vou dar ouvidos para o que você diz? É tão patético que chega a ser engraçado. – ele gargalhou – Não passei todo esse trabalho por nada. Você vai vir comigo, ou quer que mais inocentes morram por sua culpa?”

“Seu monstro” cuspi as palavras. Ele me puxou pelo braço, e tocou seu dedo em minha testa. Mais uma vez, eu estava inconsciente. Quando abri meus olhos, a claridade intensa me ofuscou completamente.

“Resolveu acordar? Já estava na hora mesmo, temos um longo caminho a nossa frente - disse o homem loiro, de costas para mim. - Não se preocupe, foi só um sonho. Mas seus amiguinhos morreram de verdade” ele soltou uma gargalhada.

“Eu não os conhecia” eu disse.

“Não precisava mesmo” ele continuava rindo consigo mesmo.

“Porque vocês me querem tanto?”

“Você realmente não sabe? Pensei que estava treinando suas habilidades com o velho Rodolf.”

“Eu mal havia chegado. Olha, você deve ter me confundido..eu não tenho habilidades, não sei do que você está falando..”

“Não banque a desentendida. Você pode não saber dos seus poderes, mas sabe muito bem que não é como os outros. Ou vai comigo, ou com seres como aquele que te criou. O que você acha?”

“Tudo bem, tudo bem. Só deixe minha família e meus amigos em paz.”

“A essa altura os demônios devem ter virado a cidade do avesso atrás de você. - ele disse, sério – a realidade não é segura para você, eles devem ter seguido todos os seus rastros por lá.”

“Mas meus pais correm perigo?”

“Esqueça seu passado, tudo bem? Eles sabem se cuidar. Não há como evitar esse tipo de coisa, temos que nos focar em você, sua proteção, antes que alguém resolva nos procurar aqui.” Eram palavras duras para mim. Duras e ao mesmo tempo verdadeiras. Como saber se devia ou não confiar nele?

Caminhamos por horas em silêncio. Nenhuma pessoa passou por nós. Era como se o mundo estivesse deserto, desabitado. Mesmo assim o homem olhava atento para cada sombra, cada minúsculo movimento do vento. Era tudo muito estranho para mim. Alguns carros se moviam na rua, mas não havia ninguém os guiando. Até o canto dos pássaros se foi, era um mundo desabitado e mudo.

“Posso fazer uma pergunta?” eu disse, achando o tom da minha voz extremamente alto.

“Droga, fale baixo! Não sabe que qualquer som que fizermos pode ser ouvido a quilômetros se alguém estiver nos vigiando?!”

“Desculpe! – eu sussurrei – Eu só queria saber que lugar é esse, porque está tudo muito..quieto demais.”

“Estamos no plano dos espíritos. Somos almas penadas, não vê?” ele respondeu, impaciente.

“Mas almas não vêem os humanos? Porque aqui não tem ninguém?”

“Quantas perguntas! É melhor você calar essa boca antes que alguém nos ouça. E, antes que você pergunte mais alguma coisa, aqui não tem ninguém porque não estamos na mesma dimensão dos espíritos, senão seria fácil demais para eles. Não tem ninguém aqui, é assim mesmo. É só o mundo material. Os únicos humanos que podemos ver somos nós mesmos, nossos corpos. É um tipo de experiência extra espiritual que poucos conseguem fazer.”

“Ah... obrigada então, pela explicação.. ”

“Ranieri” ele disse, ainda concentrado no caminho. Mais uma vez ficamos em um silêncio mortal. Eu ainda tinha muitas perguntas, mas preferi faze-las em um lugar mais seguro, se é que existisse algo mais seguro do o lugar onde estávamos. O sol cada vez mais ameaçava desaparecer no horizonte, e Ranieri ficava mais agitado a cada minuto que se passava. Seu rosto passou de uma expressão concentrada e cuidadosa para uma máscara permanente de aflição e preocupação. Começamos a correr, voando sobre os galhos caídos na trilha. Eu tinha mesmo uma super velocidade.

“Eu não estou gostando desse lugar” ele resmungou consigo mesmo, depois de horas sem falar uma palavra. Ranieri estava mais alerta do que nunca. Eu tentava acompanhar seu olhar, mas não via nada além da mata escura que nos envolvia.

“Preste atenção – ele disse – quando acharmos o esconderijo vamos ficar por lá até podermos voltar para o mundo real. Lá iremos treinar seus poderes. Não há lugar mais seguro para nós, mas se nos pegarem não temos ninguém para nos ajudar, a não ser nós mesmos, entendeu? Estaremos isolados. Mesmo que eles consigam chegar até aqui, será impossível conseguirem atravessar a próxima dimensão.”

“Estou exausta, se você se importa. Faça o que quiser. Já nem lembro como me meti nessa roubada” eu disse, de mau humor.

“Desculpe não poder te agradar, madame, mas se você estivesse no mundo real agora eles já teriam sugado sua alma e jogado seu corpo para os urubus” disse ele, com um mau humor idêntico.

Corremos por mais algum tempo, até que ele começou a desacelerar o passo. Não sei o que o fez parar, mas eu particularmente não via nada além da mata escura e fria. Estava tão frio que meus dentes começaram a se bater.

“Estamos no coração da floresta” ele disse, e me cobriu com o sobretudo preto que usava. A sua pele iluminada pela poucas fontes de luz da lua que conseguiam atravessar as copas das árvores me deixou extasiada por um momento, apesar da expressão grave em seu rosto.

“Não estou vendo nada” eu disse, tentando encontrar o ponto certo para onde ele olhava agora.

“É aqui – ele apontou para o ar e depois tocou o invisível, fazendo sua mão sumir – temos que atravessar o portal e depois fecha-lo.” Ele me fez entrar primeiro, me fazendo ficar completamente perdida no escuro. Fechou o portal e se jogou contra ele, caindo de cara no chão duro.

“Lar, doce lar” disse ele, enquanto se levantava.

“Eu não sabia que morava aqui” eu falei, meio sem saber o que dizer sobre o “canto” que ele havia achado para nos esconder.

“Eu não moro. Vivi aqui quando tive de me esconder, e não foi por pouco tempo. Passei mais tempo neste lugar do que em qualquer outro na minha vida inteira. Quando esses malditos cismam com alguma coisa é difícil eles desistirem.” Ele disse, quase falando consigo mesmo. Eu assenti, sem ter a mínima ideia de quem ele estava se referindo. Olhei a minha volta. É, aquilo definitivamente parecia um lar para pessoas como ele. Paredes de cimento, teto baixo, uma mesa com quatro cadeiras, uma janela de vidro cheia de travas e um varal de desenhos junto da parede. E isso era a cozinha. Parecia mais uma cela de prisão de segurança máxima. Haviam outros cômodos, uma sala e um quarto no fim do corredor, que pareciam tão confortáveis quanto a cozinha. O quarto particularmente se resumia a um colchão velho jogado no chão e um gabide cheio de roupas de inverno pendurado no trinco da porta, que era um prego. Seria o paraíso?

PARTE 10

Quando Ranieri viu minha cara azeda em relação ao nosso esconderijo, tentou justificar, mas não conseguiu me convencer muito.

“Eu sei que não é confortável, mas é o lugar mais seguro que eu conheço”.

“Eles não conseguem quebrar estas janelas? Nem as paredes? E como vamos comer se aqui não tem nem dispensa? Nesta casa não tem nem nada!” resmunguei.

“Essas paredes têm três metros de espessura e as janelas estão acorrentadas, cheias de nós nas correntes, impossível eles conseguirem passar por elas se conseguirem nos encontrar aqui. Não se preocupe com a comida, não vamos ter fome aqui. E é melhor você se agasalhar bem, a temperatura aqui a noite é abaixo de zero”.

“Legal” eu disse, ironicamente, sem saber o que dizer. Me sentei em uma das cadeiras, já que não havia nada para fazer naquele lugar. Ele puxou uma para perto da janela e ficou fitando a floresta, ainda em alerta. Como eu já estava cansada de tentar puxar conversa com ele comecei a pensar no que eu ia fazer, pensar no que ia pensar, contar os segundos, martelar os dedos na mesa. Isso o desconcentrou um pouco. Olhei para os desenhos grampeados no varal, que supus serem dele, feitos enquanto se escondia naquele lugar. Havia um padrão no modo em que desenhava, a maneira como pintava os desenhos com o próprio lápis que os desenhou, as linhas, os rostos. Eram rostos diferentes, mas os traços eram sempre os mesmos. Alguns desenhos eram minuciosos, detalhados, e outros eram impacientes, tão rabiscados que chegavam a ser difíceis de entender. Pensei em quanto tempo ele devia ter passado ali para perder a paciência. O primeiro desenho era a própria cozinha, depois, flores detalhadas e pessoas desconhecidas, pelo menos para mim. Algumas cenas bizarras e assustadoras. O seu próprio rosto refletido na janela e algumas folhas escritas.

“Você desenha bem” eu disse, sem pensar.

“Foi a prática” ele sorriu.

“Mas o que eu vou fazer aqui?” eu perguntei, já que ele parecia com um humor razoavelmente bom para me responder.

“Já vai saber, só vamos esperar o anoitecer. A por do sol é a hora mais segura por aqui” ele disse, e mais uma vez o silêncio. Eu já não sabia mais o que pensar, nem mais o que admirar. Olhar para a expressão congelada no rosto dele também não ajudava mais. Cruzei meus braços sobre a mesa e deitei minha cabeça sobre eles, e esperei o sono vir. Quando acordei, parecia que nem tinha dormido. A paisagem continuava a mesma.

“Eu não dormi ou aqui não anoitece nunca?” eu disse. Ele se virou para mim.

“Está quase na hora. Sei que vai assistir a muitos anoiteceres ainda, mas acho que você devia vir ver. É sempre lindo. E depois vou ocupar finalmente o seu tempo, o que acha?” ele sorriu.

“Parece ótimo” e me espreguicei enquanto me levantava. Olhei pela janela, tentando achar o tal sol que ia se por. Eram tantas árvores que ficava difícil saber de que lado do céu o sol estava. De repente, uma explosão chamou minha atenção para o lado certo. A explosão tomava tons diferentes com o passar dos segundos; dourado, vermelho, branco e azul. E depois, apenas faíscas escuras. Era o sol se explodindo?

“Eu adoro o anoitecer dessa dimensão” comentou Ranieri. Voltei o olhar para a floresta, meio aturdida. Escurecia rapidamente lá fora, até que a escuridão total chegou. Dei um pulo para trás com o susto que tomei, vendo o que descia junto com os flocos de neve. Do lado de fora da janela meia dúzia de almas penadas nos encaravam, negras e monstruosas.

“Mas você não disse que aqui não tinha alma penada?!” eu gritei.

“São as condenadas, elas fugiram do plano dos espíritos porque não agüentavam mais ver sua família sofrendo a falta delas... Calma, elas não conseguem entrar aqui”.

“Podia ter me avisado” eu disse, brava pelo susto que Ranieri me fez tomar apreciando seu ‘por do sol favorito’.

“Agora podemos treinar” ele disse, e caminhou até a sala, onde abriu o armário e tirou alguns cubos de madeira.

“Sua mente é muito poderosa, então temos que começar devagar para chegar ao resultado exato. Temos tempo para isso. Hoje você vai tentar mover esses cubos com o poder da sua mente e formar figuras com eles. Concentre-se.” Tentei me concentrar nos cubos, mas por mais que eu tentasse a única coisa que eu conseguia era uma dor de cabeça cada vez mais intensa. Ranieri me olhava com expectativa, depois com impaciência. Aquilo era ridículo. Meus olhos já estavam doendo de tanta força que eu fazia e nada de resultado.

“Chega, isso é perda de tempo” eu disse, depois de horas de esforço.

“Você não está se concentrando, tente de novo” respondeu Ranieri. Tentei mais uma vez, me concentrei ao máximo. Um relampejo branco cobriu minha visão e minha cabeça começou a zunir, mas não tirei os olhos do cubo. Era tudo o que eu podia dar. Eu ainda não estava movendo o cubo, mas ele estava começando a fumaçar. Fiz ainda mais força. Ele se ergueu no ar e, de um instante para outro, rodopiou, pegou fogo e explodiu em mil pedaços, lançando lascas de madeira para todo o lado. Ranieri me olhou espantado.

“Eu disse que não sei fazer isso” eu reclamei.

“Foi ótimo! – ele disse, sem nem ouvir minha reclamação – Foi muito melhor do que eu pensei! Vamos tentar de novo.”

Para minha infelicidade, tive que passar o resto da noite explodindo cubos no ar. Quando finalmente amanheceu, minha cabeça doía tanto que eu nem a sentia mais. Era apenas um pacote pesado que meu pescoço não podia deixar cair. Me joguei sobre o colchão, sem nem perguntar se podia ou não usa-lo. Apaguei poucos minutos depois.

Quando acordei, Ranieri estava sentado em frente à janela de novo, mas sua expressão era bem mais preocupada do que na tarde anterior.

“Temos que ir” disse ele, sem rodeios.

“Ir? Mas você não disse que aqui era o lugar mais seguro para eu ficar?”

“Eu disse, mas já não é mais. Dê uma olhada lá fora.” Caminhei até a janela e olhei através do vidro. As almas penadas que eu tinha visto na noite passada ainda estavam lá, escondidas atrás das árvores, vigiando nosso esconderijo.

“Elas querem você, sugar seus poderes. Nunca as vi por aí em plena luz do dia, mas parece que fizeram uma exceção para você” disse Ranieri, sem rir.

“Para onde vamos?”

“Sair não podemos - ele meditou – Abrir mais um portal aqui dentro também não vai resolver, estaremos ainda mais presos.”

“Vamos esperar eles irem embora, já que não podem nos pegar.”

“Você fala como se eles fossem desistir fácil. Jenny, eles tem toda a eternidade para esperar. E você tendo o que eles mais querem, nunca vão desistir.”

“O que eles mais querem?” perguntei.

“Liberdade. Se negaram a ir para a luz quando morreram e agora vivem trancados aqui.”

“E eu posso fazer isso, liberta-los?”

“Esqueça. Vamos ter problemas se fizermos isso.” disse Ranieri, enquanto um estalo voltou nossa atenção para a janela. O vidro estava começando a trincar. Nos olhamos, apavorados.

“Não temos escolha, estão entrando!” gritei, desesperada, enquanto os cacos de vidro caíam no chão.

“Você não está preparada!” me respondeu Ranieri, tentando tapar os buracos com panos velhos.

“Então me prepare! Me diga o que fazer!” Tarde demais. A fumaça negra já estava passando pelas frestas do pano, e não parava mais de entrar. Um toque frio puxou minhas mãos para trás e me segurou, enquanto outros faziam o mesmo com Ranieri.

“Mande-os para a luz” ele disse, e apagou.

PARTE 11

Sete sombras negras já estavam esvoaçando a minha frente, quando a mais imponente delas se aproximou de mim. Congelou meu rosto com seu toque. Tentei me concentrar, mas não sabia como mandá-los para a luz. Imaginei a luz em minha mente, e tentei puxa-los para ela. Inútil. Me jogaram pela janela, e caí de cara no chão úmido da floresta. Tentei mais uma vez, mas não consegui me concentrar. Iam deixar Ranieri lá. A única pessoa em que eu podia confiar. Eu tinha que conseguir, os outros iam matá-lo quando o encontrassem, seguiriam o meu rastro, me encontrariam imune...Senti o calor da raiva dominar meu corpo, e todas as sombras pararam de caminhar e se voltaram pra mim. Duas delas vieram na minha direção. Meu corpo estava brilhando, como uma fonte de luz em meio às trevas. A cada passo que se aproximavam, minha raiva se tornava mais intensa. Todos estavam a minha volta, queriam me tocar. A luz em volta de mim se tornou mais forte do que meus olhos puderam aguentar, e eu caí no chão, totalmente cega. Dedos agora quentes tocaram minha pele e queimaram com a luz, sumindo em meio ao branco. Meu corpo estava cedendo, cansado, fazendo a luz diminuir até desaparecer por completo. Mas minha visão ainda não estava voltando. A cada instante ali, caída em meio a folhas cobertas de orvalho, minha mente se distanciava mais da floresta, e, antes que tudo apagasse por completo reuni forças e gritei, o mais forte que pude, o nome de meu protetor.

“Ranieri!” gritei com todo o ar dos meus pulmões, enquanto passos molhados e apressados se aproximavam de mim.

“Você conseguiu, conseguiu!” foram as últimas palavras que ouvi, antes de acordar mais uma vez. Na escuridão.

Quando abri meus olhos não sabia se tinha ou não acordado. Tudo continuava uma eterna escuridão diante de meus olhos. Só um ranger constante de uma cadeira de balanço indo e vindo me fez acreditar que aquilo não era mais um sonho, até porque eu não sonhava desde que vi os gatos brancos serem despedaçados na minha frente. Havia um sussurrar baixinho de alguém lendo, distraído, perto de onde eu estava deitada. Mas eu não conseguia vê-lo. Pisquei, esfreguei os olhos com força. A cadeira parou de balançar e alguém tocou minha testa.

“Está acordada?” perguntou uma voz conhecida.

“Ouço sua voz” eu respondi, completamente perdida em minha própria mente.

“Finalmente! – suspirou a voz cansada – Não se preocupe, estou cuidando de seus olhos.”

“Meus olhos..?”

“A luz os feriu. Tive que tirar você do esconderijo, procurar medicamentos.”

“Estou cega?” eu disse, desesperada com a ideia.

“Não, você vai melhorar. Em breve.” Prometeu Ranieri.

Era totalmente desconfortante para mim passar o dia inteiro deitada, apreciando o silêncio ocioso do ambiente a minha volta. Ranieri passava a maior parte do tempo sentado ao meu lado, mas suas palavras eram limitadas. Molhava meus olhos com chás de cheiros fortes, em outras horas colocava massas pesadas sob minhas pálpebras. O tempo caminhava sem pressa, me deixando cada dia mais ansiosa por resultados. Pensei que ter Ranieri ao meu lado me faria sentir melhor, protegida, entretida, mas cada vez mais suas palavras vinham com fortes doses de preocupação, desanimo, tristeza. Meus olhos sempre se abriam e não viam nada, mas mesmo assim eu queria que vissem, nem que fosse uma fagulha de luz. Tudo para senti-lo feliz de novo ao meu lado.

“O que você está lendo?” eu disse, depois de cansar de tentar entender o que os trechos que eu me esforçava para ouvir diziam.

“Azul do clarão” ele respondeu, automaticamente.

“Humm” falei, sem saber como continuar a conversar sem ser intrometida. Ele também não me ajudou em nada, continuou sua leitura como se nem notasse minha presença entediada ao seu lado.

________________________________________

Continuação ->

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