FINAL
As horas se arrastavam, e a falta do que fazer tornava cada minuto um tormento. Os pensamentos se tornavam cada vez mais abstratos, incompreensíveis. Rápidos demais para que eu própria pudesse entendê-los. Enquanto isso os sentimentos se fortificavam, emoções intensas que se debatiam dentro de mim. A raiva, ás vezes, que eu não podia demonstrar para meu fiel protetor, se reprimia em uma dor forte no peito, lágrimas que eu afagava depressa. Eu sabia o que atormentava Ranieri. Ele tentava esconder de mim, mas o tom de desesperança em sua voz era inegável. Os chás e remédios era tudo o que ele podia fazer, não podíamos nos arriscar a voltar para o mundo real. Tudo ainda era muito incerto. Ele se sentava todas as tardes ao meu lado, ignorando os sinais, fingindo que estava tudo bem. Nada do que ele colocava sobre meus olhos fazia algum efeito, apenas ardia e escorria pelo rosto, molhando os lençóis embaixo de mim.
Eu ouvia seus roncos silenciosos a alguns metros de mim. Me ergui da cama, balançado os braços no ar tentando encontrar algum apoio. Não era minha intenção sair de lá ou deixa-lo, apenas a perturbação que não me deixava dormir. A culpa. Fiz alguns passos para qualquer direção, e encontrei a maçaneta da porta, que estava aberta. Eu sabia que aquele corredor daria para a porta de saída. Fora do meu quarto, a casa possuía um odor forte, que suspeitei que fossem das tantas ervas que ele usava nos chás e remédios. Pela porta da cozinha pude ouvir ruídos na floresta, que não eram de ninguém. Apenas ventos fortes que balançavam a porta e a janela, e assoviavam pelas frestas da madeira. Destranquei a porta, e o vento a abriu com força. Coloquei os pés, descalços, nas folhas secas da mata, que faziam barulho ao esvoaçar com a ventania. Pingos de chuva começavam a atingir com força meus ombros, enquanto eu cambaleava sem rumo. Alguns minutos se passaram, e meus pés estavam cheios de ferimentos. Sentei no chão, agora molhado, apenas apreciando a dor e o som da chuva, que caía forte e absoluta sobre a floresta. Me senti extremamente cansada naquele momento, como se o peso de todas as noites em claro haviam se descarregado sobre mim de uma vez só. Tentei me manter consciente, mas já era uma batalha perdida. Meu corpo amoleceu e caiu para trás, na rala grama alagada em que eu estava sentada. Eu ainda ouvia o som da chuva ao longe, como um eco em minha mente.
Sem nenhuma noção de tempo, acordei, molhada e fria, ainda com a chuva caindo forte, escorrendo pelos meus cabelos e roupas ensopados. Levantei, as pernas bambas e inseguras do chão a minha frente. Passos curtos, escorregadios. A chuva estava parando, tornava-se aos poucos um leve chuvisco sobre minha cabeça. A vegetação debaixo de meus pés começava a se transformar em um chão rochoso e irregular, quando o eco dos meus tropeços me fazia acreditar que havia algo grande pela frente. Um paredão rochoso ou uma montanha, talvez. Eu ouvia a água também, estalando nas pedras abaixo de mim. Parecia uma queda d’água, ou um precipício. Parei novamente. Não havia como prosseguir, mas também não tinha como voltar. Ranieri parecia tão infeliz agora, eu me sentia como um estorvo para ele. Eu não sentia mais em sua voz a mesma empolgação de quando o conheci, o mesmo tom de despreocupação que me impressionava, o mesmo orgulho que tinha quando falava das coisas que sabia, dos momentos difíceis que enfrentou no passado. Se mostrava cada vez mais derrotado, e mais conformado com a derrota. Não havia mais o que fazer, e ele sabia que não tinha mais volta. Eu estava cega de vez. Para sempre. Eu não era mais a salvação que ele e seu povo tanto precisavam, eu agora era uma total inútil. Não era mais a esperança, e eu gosto demais de Ranieri para suportar a dor em sua voz todos os dias. Minha vida não teria mais um final feliz, então eu deveria ao menos dar um final feliz para ele. Ser o seu alívio.
Me debrucei na beirada do rochedo, ouvi a água se quebrando ferozmente nas pedras, muito abaixo de mim. Só havia uma solução, e eu sabia qual era. Me coloquei de pé, pela última vez, e saltei no espaço vazio a minha frente. Um grito dolorido ecoou no paredão rochoso, mais dolorido do que eu jamais havia ouvido.
“Jenny, nãããão!!!” disse a voz que eu tanto conhecia, segundos antes do som feroz da água se tornar ensurdecedor e meu corpo encontrar o solo, fazendo minha cabeça explodir contra uma pedra.
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-THE END-
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