Nesse texto procuraremos abordar um pouco da experiência com a clínica no cotidiano de um psicológo. Essa é uma questão levantada por muitos estudantes às portas do vestibular. Como trabalha o psicólogo clínico? Há mercado? O que o capacita para tal função? São algumas das muitas perguntas que se faz aquele que, pelo desejo, quer entrar para uma faculdade de Psicologia.
Sabemos que embora haja uma demanda sempre crescente em relação a psicoterapia, o mercado da clínica particular continua bastante restrito e quase não são feitas contratações para o sistema público, o que facilitaria o acesso da população a esse serviço, e, ao mesmo tempo, ofereceria para o psicólogo uma opção de inserção para a clínica.
As incessantes demandas contemporâneas , a vida atribulada nos grandes centros, a falência das instituições e outros fatores trazem uma crescente demanda pela psicoterapia através dos transtornos psíquicos cada dia mais presentes na realidade de todos nós.
Para entender o que seja psicologia clínica teremos que partir sempre da premissa que esse é um trabalho antes de qualquer outro aspecto, técnico. Para que se possa emprendê-lo cada profissional passará por um longo período de treinamento e estudos dado pela graduação em psicologia(em média 5 anos) e quase sempre sairá dela direto para um curso de especialização(em média 2 anos) ou ainda as chamadas formações(em média 4 anos, podendo levar até 8 anos). Durante esses períodos o mais provável é que inicie sua própria psicoterapia, caso ainda não o tenha feito antes de entrar para a faculdade, essa demanda aparecerá quase sempre em torno do 3º ano, quando as cadeiras que são obrigatórias na graduação geralmente passam a mobilizar fortes conteúdos psíquicos no graduando. É também em torno dessa fase que muitos estudantes desistem do curso e se transferem para outros. Embora se conheçam poucas estatísticas sobre o tema, essa informação é algo comentado pelos profissionais que trabalham com os graduandos.
Ser psicólogo clínico é então, antes de tudo, uma formação que se detalhará pelo desenvolvimento de uma técnica. A questão que traz atrelada e deixa mais complexo o caminho da formação desse profissional, será o fato de que necessariamente o desenvolvimento dessa capacidade técnica, passará também por um questionamento pessoal e um investimento em crescimento, isto posto para a maioria das correntes que lidam com psicoterapia, com raras exceções. Há também por volta do 4º e 5º ano obrigatoriamente, o início dos atendimentos e consequentemente entrará também a participação em uma supervisão, a essa altura quase sempre feita em grupo, o que mobiliza ainda mais esse psicoterapeuta em formação.
O primeiro aspecto com que se vê confrontado aquele que busca essa formação será com tudo aquilo que envolve as lendas criadas em torno desse ser psicólogo, como primeira, a questão da “ajuda”, cujo teor assistencialista será logo questionado. É comum ouvirmos de um aluno em início do curso, de que procurou a psicologia porque gosta de “ajudar”, e bem cedo entenderá que se sua vocação for essa, o curso de psicologia não é o caminho mais curto para esse fim. Assim como outras funções da área da saúde, a psicologia não tem como fim a ajuda, mas sim visa um trabalho de modificação de patologias e isso muitas vezes ou quase sempre não se constituirá como aquilo que popularmente se entenderá como ajuda. Essa é uma questão importante na medida em que na clínica nem sempre a atuação necessária será entendida como essa ajuda procurada e caso se prenda a esse aspecto poderá, pelo contrário, impossibilitar aquilo que entenderemos como intervenção psicoterapêutica. Essa intervenção guarda aspectos que passam pelo real que a diferenciam do ato da ajuda humanitária:
• é um serviço necessariamente cobrado(remunerado)
• tem tempo estabelecido em sua intervenção que deve ser obedecido, o tempo da sessão
• não visa atender a expectativa de aceitação dos mecanismos operados pelo paciente
• pode em casos extremos ter que interferir com medidas de cunho terapêutico que não estarão necessariamente de acordo com o solicitado no manifesto do paciente
• estabelece uma relação obrigatoriamente assimétrica entre psicólogo e paciente
• não visa resgatar aspectos adaptados para o paciente, embora em alguns casos isso até termine por se constituir em ganhos advindos da psicoterapia e uma mais saudável relação do sujeito com o mundo afetivo a sua volta
• não necessariamente estará de acordo com o senso comum sobre as inúmeras possibilidades do fazer humano.
Essas são apenas umas poucas características entre tantas outras que diferenciam o trabalho psicoterapêutico de uma prática de ajuda ou de cunho assistencial, para essa segunda opção teremos outras formações que cumprem bem essa nobre função.
Veremos a título de informação a pesquisa contida no artigo do link 1, que demonstrará um abandono do curso em uma universidade pública de São Paulo. A maior percentagem acontecerá no primeiro ano e os dados apontam para questões da ordem do real agregados a fatores do simbólico relacionado a questões de classe e expectativas familiares. O que aqui queremos observar é que o segundo maior percentual acontecerá justamente no 3º ano do curso, como citamos mais acima, e podemos supor que nesse percentual encontraremos algo mais da ordem do simbólico do sujeito para essa evasão, ligado mesmo ao conteúdo do curso.
O curso de psicologia exige do aluno uma capacidade de leitura considerável, isto porque ele estudará as inúmeras áreas onde a psicologia é aplicada e também as diferentes linhas de abordagem que ela abriga. Cada vertente dessas exigirá um grupo de leituras bastante considerável. Então poderemos supor que estudar psicologia exigirá um gosto anterior pela leitura que já deva estar desenvolvido ao ingressar na faculdade. Outro aspecto será também o da escrita, que também já deverá estar em um bom estágio de desenvolvimento quanto ao domínio da língua.
O interesse pela clínica, embora pareça estar decaindo um pouco, ainda é forte dentro da busca em psicologia, uma vez feita essa escolha geralmente esse estudante procurará informações mais detalhadas em busca do caminho para eleger uma linha de abordagem como aquela com a qual se identifica. Ao longo de décadas essa escolha tem se distribuído com forte predominância entre a psicanálise freudiana e pós-freudiana e o behaviorismo ou hoje ainda em direção à Análise do comportamento ou ainda as terapias cognitivo-comportamentais.
O aluno passa por todo esse percurso até começar seu estágio supervisionado, que poderá acontecer na clínica social de sua própria faculdade ou ainda em outros lugares que ofereçam estágios credenciados. E assim começa sua vida de psicólogo clínico, ainda dentro da sua graduação. Fase essa importantíssima para todo desenvolvimento ulterior desse clínico, por essa razão mesmo, os supervisores que trabalham com estudantes procurarão detalhar cada atendimento, perceber falhas na aprendizagem teórica, assim como impedimentos pessoais. O primeiro paciente chega entre um misto de espanto, medo e júbilo, tudo misturado. Psicoterapeutas promissores já poderão ser localizados aí nessa fase, onde apesar de toda essa mistura de sentimentos, ao iniciar o atendimento, a técnica se apresenta a frente de qualquer outra premissa, faz-se o silêncio em suas emoções e sua escuta se volta totalmente para aquele que busca a consulta, aquele que importa no setting, o paciente. Muitas vezes mais, ao longo de sua trajetória, passará por isso, quando sua vida pessoal atravessa fases difíceis ou mesmo alegres por demais, ou quando o paciente mobilizar conteúdos seus na contra-transferência ou ainda os não trabalhados, vistos como pontos-cegos(psicanálise).
O início de atividade de um psicólogo recém-formado é sempre um árduo caminho, porque ainda estará investindo em sua formação e terá um ganho bastante limitado, não é uma trajetória fácil, embora também não seja tão mais difícil que muitas outras profissões. O diploma da graduação é conquistado e logo esse profissional perceberá que muito ainda há o que se fazer para atingir um grau de maturidade profissional que seja minimamente suficiente. Por outro lado, contraditoriamente, sabemos que é uma atividade que para um ganho médio exigirá um menor número de horas trabalhadas, tendo esse profissional ao seu dipor um tempo para se aprofundar em sua formação e acompanhamento necessário do início de sua prática. Os cargos oferecidos para um psicólogo clínico em instituições são de número bem reduzidos, não se constituindo portanto em uma saída para a grande maioria.
Hoje o grande 'boom' de procura por essa graduação já cedeu um pouco, embora ainda se veja um grande contingente em formação, essa procura estaria mais estável, não apresentando aspectos muito alarmantes de crescimento. Embora isso, sabemos que o mercado está longe no momento, de ter como acomodar todos esses profissionais, o que fará com que muitos acabem se voltando para outras atividades e desistindo por um tempo ou para sempre de exercer a função para a qual se prepararam e dedicaram tempo e muito estudo. Mas isso também não é diferente do que acontece com muitos outros profissionais de outras áreas, é uma realidade quanto ao ensino superior em nosso país.
O que pode ter de vantajaso a se pensar, é que a psicologia é uma atividade ainda em expansão, cada ano se abrem novos campos e perspectivas de trabalho e aqui no Brasil ela vem crescendo em termos de aceitação de sua prática pela população, começa a ganhar uma maior visibilidade social.
Consultas:
Links
1 - O projeto profissional familiar como determinante da evasão universitária - um estudo preliminar - Marcelo Afonso Ribeiro
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci _arttext&pid=S1679-33902005000200006&lng=pt&nrm=is o
2 -Recadastramento - Dissonâncias do mercado deixam psicólogo sem perspectivas
http://www.crpsp.org.br/a_acerv/jornal_crp/102/fra mes/fr_recadastramento.htm