De novo e de novo. Morri e renasci.
Sempre o mesmo ritual. Morrer agora para renascer dois dias depois, com o corpo esverdeado pela podridão do túmulo, alguns órgãos já putrefatos e liquefeitos, tendo que restaurar tudo, no mesmo lugar.
A morte, o descanso eterno e merecido, me é negado. Por ser quem sou morri condenado a vagar pelo mundo dos mortais, sob a luz fulminante do sol, e sob o olhar aconchegante da lua.
Minhas amigas, estrelas, as únicas que me acompanham há tantos séculos,ouvem caladas aos meus lamentos, lamento de anjo caído, lamento de vampiro condenado.
''Senhor, dê-me forças para ser quem eu era.
E perdoe-me pelo que sou."
Meus olhos, únicos órgãos que permanecem intactos a cada renascença,viram muitas guerras, revoluções, viram muitos inocentes morrendo,muito sangue escorrendo pela terra da Humanidade.
Mas, ainda assim, continuam intactos após minhas mortes.
Esse é meu prólogo, minha apresentação inicial. Ao longo dessas memórias,permito-lhe que tire suas próprias conclusões.Bem vindo, companheiro de bordo, ao navio à deriva que será esta leitura.Deleite-se com essas palavras, que serão as últimas partidas deste corpo semi-morto. Bem vindo ao fundo do poço.