1900-1950: Expressionismo, Lust for Life e
a face branca do Impuro
por Kipper
Não é nenhuma surpresa que o grupo de pos-punk Bauhaus se chamasse antes Bauhaus 1919 e tenha escrito uma canção chamada Antonin Artaud e outra chamada Bela Lugosi is Dead. 1919 foi o ano do lançamento do manifesto da escola artística Bauhaus, Bela lugosi é uma referência ao cinema expressionista e o ator, pensador e teatrólogo Antonin Artaud, com seu "Teatro da Crueldade" influenciou toda a arte do século XX.
Muito antes dos poetas Beat, de AndyWarhol e do punk e post-punk.
Artaud já advogava um espetáculo visceral, catártico e multimídia e com um conteúdo fortemente alternativo a cultura dominante. Um trecho de Artaud, sobre seu Teatro da Crueldade : “Eu emprego a palavra crueldade no sentido de um apetite pela vida, um rigor cósmico, uma implacável necessidade no sentido gnóstico de um turbilhão vivo que devora a escuridão.
Por estar avante de seu tempo, Artaud foi considerado louco, internado e tratado com eletrochoques
2 Se lenda, fato ou anedota, não importa, mas é bem conhecida a história na qual James Joyce, ao ser perguntado sobre o que fez durante a Primeira Guerra Mundial, teria respondido de pronto:" Eu escrevi Ulysses. E você ?”. Não é uma coincidência. Leopold Bloom,” o novo Ulysses “de Joyce, é uma inversão do Ulysses (Odisseu) de Homero e conseqüentemente uma severa crítica ao modelo de ser humano fundado na Grécia antiga e que teria atingido seu ápice com acontecimentos nefastos do século XX, como a Primeira Guerra Mundial e o Fascismo Industrial.
A astúcia de Ulysses, há mais de 25 séculos, seria o Ovo da Serpente primordial. Mas Joyce e a Literatura não foram os únicos que buscaram alternativas , nas Artes e Filosofia, para a Guerra com tecnologia Industrial. Ou seria mais apropriado dizer ao Industrialismo com estratégias de Guerra?
(Não por acaso um famoso livro de Marketing da década de 1980 se chamava” Marketing de Guerra'.
Definitivamente, o pós-modernismo pode ser chamado de “Pós-Antigo") Mas o que nos interessa aqui é que os artistas que pegaram em armas neste conflito que se estendeu de 1914 a 1919 voltaram das trincheiras com uma noção ainda mais clara de que havia algo de podre no reino da Dinamarca. Ou melhor,, algo de extremamente errado na cultura européia enraizada no seio Greco-Romano. Pela primeira vez foram utilizados armas químicas, aviões e tanques, entre outras engenhocas mortíferas. Os horrores desta guerra haviam suplantado, pela sua tecnologia e escala industriais, todas as guerras jamais vistas.
O Expressionismo ( circa 1905-1920/ 1940, para outros ) nas artes plásticas surge exatamente desta intenção dupla de expressar que a Cultura Euro-Centrista devia ser relativizada e de relatar os horrores e incoerências que ela produzira. Assim, ao mesmo tempo em que vai buscar a referência nas artes de culturas consideradas "inferior” pelos Europeus, também elabora essas influências com uma grande dramaticidade e obscuridade, conseqüências do momento histórico Europeu. Assim, os diversos movimentos modernistas nas artes,
(Expressionismo, Cubismo, Bauhaus, etc) tem esta raiz que, do ponto de vista do Europeu acostumado a ser o centro se um Império e modelo de ser humano e cultura, é impura e bárbara.
Porém, como sabemos, nenhuma cultura gerou tanta barbárie e horror como o Iluminismo decadente degenerado em em uma cultura objetiva que acreditava que os fins justificam os meios. Esta continua sendo, até hoje, a Cultura dominante, apesar de suas contradições estarem em escandalosa evidência.
3 O panfletarismo produz muitas vezes arte de baixa qualidade, mas pelo contrário, a percepção de sentido, significado e contexto geralmente produz os melhores resultados.
Também o Expressionismo, usando do vocabulário específico de cada uma das artes filiadas a ele, expressou sua postura contra o Iluminismo degenerado do final do século XIX, que segundo Adorno, já é o próprio Industrial-Fascismo. Na pintura, especificamente, Dietmar Elger, em seu livro “Expressionismo, uma revolução alemã na arte" comenta: "... o Expressionismo parece ser mais a expressão se uma geração jovem, a qual somente tinha um ponto em comum: a rejeição as estruturas políticas e sociais vigentes.
Com a idéia de uma comunidade que levava uma vida simples, uma vida genuína e guiada somente pelo ritmo da natureza, os expressionistas idealizavam um mundo utópico, uma alternativa à sociedade marcada pelo processo de trabalho industrializado...()... Este conflito, com a sociedade em que viviam, estava quase sempre ligado a uma emancipação pessoal." Também o Cinema e o Teatro, usando de suas linguagens, entraram neste movimento de sátira e crítica a cultura européia industrial e apolínea.
Estas duas artes, assim como a literatura e a pintura, também “mostram os monstros" (sic) por trás da bela "urna grega imaculada" romântica. O belo sublime Wagneriano é desmascarado. As artes querem falar do homem comum e do cotidiano. E do estrangeiro, considerado, igual. Os filmes Expressionistas satirizam o romance europeu romântico do século XIX ou apresenta fantasias de um futuro tecnológico sombrio, como em Metrópolis (1926, Fritz Lang).
Também a música erudita da primeira metade do século XX passa a buscar a simplicidade e a pesquisar sonoridades de outras culturas. Podemos citar Érika Satie e Kurt Weil como grandes exemplos, sem esquecer o trabalho multe cultural de Bertod Brecht e Antonin Artaud e Jean Cocteau.
Em 1917 Erik Satie, Jean Cocteau e Pablo Picasso apresentaram o Ballet "Parade" em Paris que causou um escândalo, pois Satie incluiu como instrumentos uma máquina de escrever, a foghon e a rattle. Isso décadas antes do termo Rock Industrial ser concebido.
Aliás, antes do Rock n‘Roll ser inventado.. Satie foi um compositor erudito que também tocava em cabarés e cafés, com um trabalho que procurava reproduzir a vida cotidiana. Como quase toda a arte de vanguarda da época, seu trabalho era fortemente anti-romântico e antiimpressionista.
O termo "cabaret culture" é usado oficialmente para o período da República de Weimar, no entre guerras, mas desde o século XIX os cabarés continuavam sendo o ponto de encontro e debate destes artistas e/ou pensadores alternativos ao pensamento dominante.(Depois de 1950, como já vimos no artigo anterior, essa tradição é continuada e atualizada pela geração Beat, até o final da década de 60, quando já não existem "cabarés" propriamente ditos, mas sim clubes noturnos.)
Quem não conhece as canções de cabaret de Kurt Weil e Bertold Brecht?
Ou as pinturas de Tolouse Lautrec?
O clima é de oposição de "degeneração" do Cabaret, do Vaudeville, do Circo contra o Eurocentrismo Cultural Purista. A face branca é a do ator expressionista em seu personagem visceral, não a face branca da pureza moral ou étnica.
O Vampiro é um dos grandes símbolos da elaboração desta "impureza" do inconsciente. E exatamente começo do século XX a Psicanálise chocando a hipocrisia da cultura positivista européia, com conceitos como sexualidade infantil e pulsões de prazer e morte., entre outros conceitos que até hoje estão sendo assimilados..
E na introdução já comentamos Antonin Artaud…. que influenciou a todos por gerações, de Jim Morrisson a Patty Smith chegando a Peter Murphy , só para ficar nos mais conhecidos.
Conceitos do Expressionismo (e os demais modernismos), como a Cabaret Culture, nas diversas artes são bases da estética criada pela Darkwave / Gothic nos anos 1980. Infelizmente, já na década de 1930 , tanto na Europa Ocidental como na URSS estes movimentos artísticos e filosóficos são considerados "degenerados" pelos regimes fascistas de Mussolini, Hitler e Stálin. (apesar de o início da Revolução Bochevique ter apoiado uma arte "nova", isto durou pouco).
Também na América , logo depois, temos uma onda repressora . Mas como já vimos, uma linha condutora "underground" de contra cultura se manteve até os dias de hoje.