Em nosso breve estudo sobre Reich, pudemos perceber o qto sua figura é contrastante. Embora reconhecido como cientista íntegro, foi alvo de polêmica em cada campo que abordou.
Em Viena, Freud o considerou um clínico brilhante. Contudo, foi afastado da Sociedade Psicanalítica qdo suas opiniões se tornaram radicais do ponto de vista social.
Em Berlim, como marxista, lutou contra o facismo; os comunistas, no entanto, destruíram suas obras em virtude de sua psicologia mais profunda. Hitler colocou sua cabeça a prêmio.
Em Oslo, fundou uma nova escola de terapia psicossomática, mas a imprensa o acusou de "judeu pornográfico".
Na França, seu trabalho de cunho biológico foi confirmado pela Universidade de Nice e aceito para publicação; contudo, foi forçado a emigrar, em conseqüencia da campanha de um jornal norueguês, que afirmou serem tão fantásticos seus resultados, que deviam ser falsos.
Na América, descobriu uma radiação na atmosfera. Einstein confirmou 2 de suas descobertas e disse que seria uma gde surpresa para a física se as alegações de Reich fossem verdadeiras. 30 doutores aplicavam a nova forma de tratamento médico criada por ele - mas a técnica foi declarada uma farsa por um dpto do governo americano, e todo o material de pesquisa foi confiscado e destruído por ordem judicial.
Reich chegou a acreditar que seu problema era ter descoberto "em excesso". Boadella (1985) diz que essa excessividade deve-se ao fato de que "sua atividade psiquiátrica rompeu fronteiras estabelecidas, levando-o à sociologia e à biologia. Seus estudos conduziram-no do organismo aos limites da atmosfera e finalmente às implicações planetárias da ecologia humana."
Para compreender a teoria reichiana (ou seus 40 anos de produção científica), devemos ter em mente que "o biológico, o psíquico, o caráter, jamais são pensados isoladamente em Reich, como esferas autônomas, mas inscrevem-se sempre nas redes da socialidade, em sistemas psicopolíticos de variada envergadura, desde essas microssociedades que são o casal e a família, até os gdes agregados q são as nações e a própria humanidade. O rigoroso respeito ao pensamento de Reich implica, portanto, que se leve em conta e que se considere essa dimensão política, ou mais precisamente psicopolítica, ignorada por psicólogos e políticos ao msm tempo." (Dadoun, 1987, p.17)
Ou seja, o ser humano deve ser enfocado de maneira global. Por isso Reich não restringia sua pesquisa, na qual foi elaborando análises psicológicas, biológicas e sociológicas dos indivíduos; o que ele denominou biofísica : "A estrutura psíquica é ao msm tempo uma estrutura biofísica, que representa um estado específico indicativo da interação das forças vegetativas de uma pessoa" (Reich, 1995a, p.225). Em palavras superficiais, podemos interpretar que a estrutura psíquica (o q a pessoa sente/pensa) interfere no funcionamento orgânico. Para ilustrar: uma pessoa que sente ódio e desenvolve uma úlcera gástrica. O fato de Reich ter transitado por várias áreas científicas, de ter trabalhado simultaneamente em disciplinas tão diferentes, provoca estranheza por parte das pessoas; como ele mesmo diz, “alguns psicanalistas desejam que eu volte para a psicanálise; os políticos empurram-me para a ciência natural e os biólogos, para a psicologia.”
Um dos primeiros temas a interessar Reich na universidade de medicina foi a sexualidade. Foi através de um seminário organizado pelos próprios alunos para chamar a atenção ao descaso do curso com o tema que Reich teve seu primeiro contato com Freud, através de sua Teoria da Libido. Foi a partir da teoria da libido que Reich desenvolve sua teoria de Potência Orgástica. Reich enfocava os aspectos sexuais da neurose, alegando que se uma pessoa fosse sexualmente satisfeita, não poderia ser neurótica. Para Reich, a expressão de saúde está baseada na potência orgástica, ou seja, na capacidade do ser humano de completar o ciclo tensão – carga – descarga – relaxação.
“A sexualidade entendida como uma atividade vital e natural deve ser também compreendida como um aspecto da personalidade total do indivíduo. A sexualidade é uma forma de expressão emocional, cujo contato do indivíduo consigo próprio, com seus sentimentos e sensações, o capacitam a entregar-se ao outro de maneira profunda e verdadeira”.
“Os sintomas neuróticos provêm de um conflito entre as reivindicações instintivas (Id) e as exigências morais (Superego) que proíbem a sua satisfação”(Freud apud Reich, 1927, p.31)
A necessidade de recalcar exigências pulsionais origina a formação do caráter. “(...) o caráter consiste numa mudança crônica do ego que se poderia descrever como um enrijecimento. Esse enrijecimento é a base real para que o modo de reação característico se torne crônico; sua finalidade é proteger o ego dos perigos internos e externos. Como uma formação protetora que se tornou crônica, merece a designação de encouraçamento’(...)” (Reich,1995b, p.151)
Segundo Reich, os indivíduos criados numa atmosfera que nega a vida e o sexo, desenvolvem um medo do prazer, o qual é representado por sua couraça muscular.
O indivíduo encouraçado seria incapaz de dissolver sua couraça e, portanto, seria
incapaz de expressar as emoções biológicas primitivas. Ele conhece a sensação de agrado, mas não aquela de prazer orgânico.
Reich sentiu que o processo de encouraçamento havia criado duas tradições intelectuais distorcidas, as quais formaram a base da civilização: a religião mística e a ciência mecanicista:
Os místicos: não desenvolveram sua couraça tão completamente. Permaneceram, em parte, em contato com sua própria energia vital, e são capazes de grande compreensão interna (insight), porém distorcida, uma vez que tendem a se tornar ascéticos e anti-sexuais, a rejeitar sua própria natureza física e a perder o contato com seus corpos. Para Reich, Deus seria a idéia mistificada da harmonia vegetativa entre o eu e a natureza.
Os mecanicistas: têm um medo básico de emoções profundas, vivacidade e espontaneidade. Eles tendem a desenvolver um conceito rígido e mecânico da natureza e estão primeiramente interessados nos objetos externos e nas ciências naturais. Não toleram erros e incertezas, e as situações de mudanças são inoportunas.
Reich esforçava-se para tornar seus pacientes conscientes de seus traços neuróticos de caráter. O princípio básico de sua terapia era a anulação da rigidez (encouraçamento) do caráter e da musculatura. Façamos um paralelo entre a Psicanálise e a Vegetoterapia Reichiana para ilustrarmos as diferenças:
PSICANÁLISE
Essência e objetivo: Basicamente tornar consciente a matéria do inconsciente
Método: Associação livre; essencialmente falar e comunicar
VEGETOTERAPIA
Essência e objetivo: Restabelecer o equilíbrio biofísico, libertando a potência orgástica
Método: Perturbação das atitudes vegetativas involuntárias (logo, inconscientes).
Reich postulou o ORGONE como energia vital presente em todos os seres vivos e no universo. (orgone vem da junção de organismo + orgasmo).
“A energia orgone cósmica funciona no organismo vivo como energia biológica específica. Como tal, governa todo o organismo, se expressa tanto nas emoções quanto nos movimentos puramente biofísicos do corpo.”
(Reich, 1995b, p.330)
Após a “descoberta” do orgone, Reich denomina sua terapia de Orgonoterapia. A orgonoterapia é um tratamento de saúde que visa a recuperação da espontaneidade, ou seja, restabelecer o bem estar geral do paciente (como é sua atitude diante da vida, postura corporal, funcionamento energético). O orgonomista tem uma visão mais abrangente do indivíduo (mente – corpo), por isso, além de fazer uma interpretação
do conteúdo verbal, também faz uma avaliação biofísica.
Reich foi o primeiro analista a tratar pacientes pela interpretação da natureza e função de seu caráter, em vez de analisar seus sintomas. Ele chegou a acreditar que a meta da terapia seria a libertação dos bloqueios do corpo para o livre fluxo de energia e obtenção de plena capacidade para o orgasmo sexual.
Para Reich, a expressão orgástica caracteriza-se no desenvolvimento concomitante de amor-afeto-sexualidade. O que ocorre em nossa sociedade impotente é que atualmente desvincula-se facilmente a sexualidade do amor e do afeto; e isto é visto como um sintoma neurótico. O homem e a mulher nasceram completos e aptos a alcançar a potência orgástica, a permitir que a energia flua, sem ser bloqueada por algum dos sete segmentos de couraças. Porém, aspectos psicossociais agem de forma a desenvolver as couraças e a bloquear esta capacidade natural. Então o ser humano apela para a pornografia, sex shops, instrumentos “a mais” (portanto, em excesso, desnecessários), para alcançar o orgasmo, o que ilustra este desvio de comportamento. Observemos os dados de uma pesquisa realizada pelo Dispensário Psicanalítico de Viena. De 166 homens analisados,
17 eram potentes,
18 impotentes,
69 neuróticos e abstinentes,
27 neuróticos e incapazes de ereção,
14 neuróticos com ejaculação precoce,
9 perversos e incapazes de ereção,
5 idade crítica,
7 neurose atual com coito interrompido.
De 91 mulheres analisadas,
6 eram frígidas,
27 neuróticas abstinentes,
37 neuróticas frígidas,
12 neuróticas e frígidas com conflito atual,
E 9 estavam em idade crítica.
Lembremos a capacidade natural do homem de desenvolver a potência orgástica e pensemos nos motivos que desencadeiam todos estes distúrbios. Este foi um dos aspectos que detiveram a atenção de Reich.
Reich, como cientista íntegro que foi, defendeu suas posições teóricas e políticas com o objetivo de preservar o direito à liberdade e à busca da verdade no desenvolvimento de um pensamento científico. Apesar desse seu admirável objetivo, foi combatido com perseguições, críticas e incompreensões de um mundo contaminado por um comportamento humano típico, que ele chamou de Peste Emocional. “Podemos definir a peste emocional como um comportamento humano que, com base numa estrutura de caráter biopática, age de maneira organizada ou típica em relações interpessoais, isto é, sociais e em instituições” (Reich, 1995, p. 465)
Reich utiliza o termo biopatia para se referir à tds efermidades causadas por uma disfunção básica do sistema neurovegetativo, no qual existe um comprometimento emocional e físico, por conseqüência. A característica essencial desta doença é que ela se manifesta essencialmente na vida social e está intimamente ligada ao caráter neurótico.
A pessoa acometida pela peste emocional têm um pensamento perturbado por conceitos e emoções irracionais. Por não conseguir se promover pelo esforço próprio, busca se promover por meio da destruição do outro. Ex: em vez de escrever seus próprios livros, vive em busca de erros nos livros dos outros para poder criticá-los, no intuito de destruir a qualidade das obras.
“Existem almas vazias que têm sede de sensações fortes para encher seu deserto interior. Elas se inclinam, por isso, para o mal.” (Reich, 1991, p.121)
Como doença que é, pode ser tratada. Como diz Reich, “Só o restabelecimento da vida amorosa natural das crianças, adolescentes e adultos pode livrar o mundo das neuroses de caráter e da peste emocional em suas diversas formas.” (Reich, 1995, p. 491)
Resumindo, então, podemos identificar na teoria reichiana a proposta de que a personalidade deve ser compreendida a partir do caráter psíquico, da estrutura corporal e estrutura social, o que significa buscar o entendimento da energia libidinal e da regulação do seu fluxo, pela função do orgasmo. O impedimento desta regulação, ou seja, a retenção do fluxo energético nas couraças musculares é desencadeada pelas condições da vida social, as quais não respeitam a natureza humana, “uma vez que a imposição de normas educacionais provocam a supressão de sensações libidinais, limitando e restringindo a mobilidade psíquica.” (Torresi, 1996)
Reich diz ainda que o Amor, o Trabalho e o Conhecimento são as fontes de nossa vida, e que por isso deveriam governa-la. Se o amor nos governasse, nós não exaltaríamos mais o Estado que a própria justiça, a mentira mais que a verdade, a guerra mais que a Vida. Nós nos preocuparíamos mais com a plena realização de nosso próprio trabalho do que criticar o trabalho do outro. Nós não colocaríamos nossa autoridade pessoal acima do Conhecimento.
“Este é o nosso grande dever: capacitar o animal humano a aceitar a natureza que existe dentro de si, parar de fugir dela, e passar a desfrutar daquilo que tanto o atemoriza.” (Reich)
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Bibliografia básica:
BOADELLA, D. A energia dos impulsos: o desenvolvimento da teoria do orgasmo. In: Nos caminhos de Reich. São Paulo: Summus, 1995.
_____________. A estrutura do caráter: o nascimento da análise do caráter. In: Nos caminhos de Reich. São Paulo: Summus, 1995.
• REICH, W. Escute, Zé-Ninguém. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
_________. O reflexo do orgasmo e a técnica da vegetoterapia de análie do caráter. In: A função do orgasmo. São Paulo: Brasiliense, 1998.
TORRESI, M. E. Era uma vez um corpo... Estudo exploratório da relação mente-corpo no trabalho intelectual do professor universitário. UNESP – Marília, 1994. Dissertação (Mestrado). (p. 13 a 25)
VOLPI, J. H. Peste emocional. Curitiba: Centro Reichiano, 2002
__________. Reich e a economia sexual. Curitiba: Centro Reichiano, 2004
__________. Um panorama histórico de Wilhelm Reich. Curitiba: Centro Reichiano, 2004
WAGNER, C. M. Freud e Reich: continuidade ou ruptura?. São Paulo: Summus, 1996